O projeto Arte no Heliópolis (http://www.espiral.org.br), realizado coletivamente pelo Grupo de Pesquisa Paisagem, Cultura e Sociedade da FAUUSP, a UNAS do Heliópolis, artistas, alunos de graduação e pós-graduação, e intercambistas de universidades latinoamericanas e européias, começou com muita expectativa e ânimo de todos os participantes. Lamentavelmente, na primeira semana de setembro, fatos violentos e injustificáveis ceifaram a vida de uma estudante que retornava para sua casa no Heliópolis. Nos últimos meses a imprensa noticiou outras quatro vítimas de disparos policiais atingindo a população civil, inclusive crianças, e a moradores indicam relatam outros casos não noticiados de violência e agressão.

Esta ação indiscriminada e no mínimo imprudente de representantes da polícia, que esperamos não expressem o ideário da corporação, mas são assustadoramente recorrentes na periferia, tem levado a uma manifestação desesperada dos moradores que não pode ser reduzida apenas à ação de traficantes.

Em carta ao senado, a presidente da UNAS aponta ainda outras ações violentas, que não têm sido noticiadas: “Com a morte de nossa jovem, Ana Cristina de Macedo, 17, já se acumulam vários episódios de violência policial; nem todos com a cobertura da imprensa, mesmo quando culmina com vítima fatal. Não é somente a perda de nossa jovem. Quando realizam a chamada ‘operação varredura’, casas são invadidas, pessoas são desrespeitadas em seu direito fundamental, como o de ir e vir, isso a título de defender o Estado de direito e a ordem pública, como por ocasião do episódio da menina Tainá, de oito anos (que sobreviveu), o método foi o mesmo, com a diferença de que a comunidade se viu obrigada a proteger a vida de um dos policiais que participaram do episódio; o que ontem não ocorreu, pois a vítima Ana Cristina morreu”.

Os fatos ocorridos – crianças e estudantes atingidas por tiros – bastam para causar a revolta de qualquer um e favorecem uma manifestação dos moradores para que o restante da sociedade veja a violência, discriminação e a dor a que estão sendo submetidos, já não bastassem as condições adversas de moradia e emprego a que estão sujeitos. Se em outros lugares da cidade isso fosse comum, não seríamos todos tomados de indignação? Não devemos sê-lo agora, e nos manifestarmos em defesa da vida, da paz, de condições de vida adequadas para todos os trabalhadores, jovens, idosos, independentemente de sua origem, renda, crença? Ou vamos mergulhar nossa indiferença em um obscurantismo crescente na sociedade da qual fazemos parte?

A alegação de que, nessa condição, grupos interessados em confrontos se aproveitem da comoção da população, não é descabida, mas se houve foi pontual. Qualquer análise objetiva desse caso renunciaria remeter à ação de criminosos o protesto de moradores diante das condições que estão enfrentando. Reduzir toda ação de protesto diante de fatos graves como esses a uma ação do tráfico é mostrar uma insensibilidade, no mínimo, ou má fé, diante do drama humano. Qual sociedade estamos a construir? Não se pode ignorar que se algumas ações possam ser atribuídas a grupos marginais, mas o conjunto da manifestação decorre de um anseio legítimo por justiça, por segurança, e a repressão violenta e indiscriminada diante de um momento de dor tão intensa como ferimento de quatro jovens e morte de outros dois evidentemente só poderia agravar o sentimento de revolta da população.

A ação da polícia de reprimir sumariamente manifestações cuja origem é uma indignação legítima, ampliam a zona de conflito e revelam despreparo para lidar com essas situações e o agravamento das condições nas periferias. Quando donas de casa, estudantes e trabalhadores saem às ruas porque parentes e amigos estão sendo mortos em ações do Estado, a situação não pode ser reduzida a uma ocorrência policial e ao crime. Ao contrário, a sua coragem é a que deve ser a de toda a sociedade. Os cidadãos precisam ser ouvidos. Urgentemente. É necessário encontrar soluções de curto prazo para proteção e desenvolvimento da vida, e abrir um diálogo mais sério para a superação das condições estruturais que geram esse quadro muito injusto que qualquer pessoa que simplesmente percorra as avenidas desta cidade poderá perceber.

Destacamos que embora na favela (mais de 125.000 moradores!) haja enclaves de criminalidade, os brasileiros que aí residem são em sua grande maioria trabalhadores. No caso do Heliópolis, os próprios moradores assumiram a realização de um trabalho social (http://www.unas.org.br) que hoje tem o reconhecimento de profissionais liberais de diversas áreas, intelectuais, do próprio governo, e de inúmeras instituições. Diante da enormidade das carências e do abandono do poder público até muito recentemente, inventaram eles próprios os meios técnicos e humanos para suprir o ônus de vencer a situação de desigualdade com trabalhos sociais e solidários que são exemplares, voltados para a educação de crianças e jovens, retirando-as das ruas e do crime e dando-lhes acesso à educação e formação, combate à violência, justiça restaurativa e outras tantas iniciativas em que estão empenhados, e com os quais muito temos a aprender.

Manifestamos nossa solidariedade aos moradores e repúdio a toda e qualquer forma de violência, de onde quer que venha. A paz na cidade tem que ser construída, e não pode ser construída com mais violência e incompreensão, com insensibilidade diante dos dramas humanos que a cidade abriga. É necessário nos voltarmos para ações consttitutivas do que chamamos de direitos humanos e sociais, qualidade de vida, e outras aspirações e princípios humanos que não podem ficar no papel ou em noticias às vezes ambíguas sobre o que está acontecendo ao nosso redor. Cabe a cada um, com o próprio entendimento, compreender quando a dor é intensa, e o quanto é necessário mudar condições como essas que estamos presenciando.SOBRE A MORTE DE MORADORES DO HELIÓPOLIS

O projeto Arte no Heliópolis (http://www.espiral.org.br), realizado coletivamente pelo Grupo de Pesquisa Paisagem, Cultura e Sociedade da FAUUSP, a UNAS do Heliópolis, artistas, alunos de graduação e pós-graduação, e intercambistas de universidades latinoamericanas e européias, começou com muita expectativa e ânimo de todos os participantes. Lamentavelmente, na primeira semana de setembro, fatos violentos e injustificáveis ceifaram a vida de uma estudante que retornava para sua casa no Heliópolis. Nos últimos meses a imprensa noticiou outras quatro vítimas de disparos policiais atingindo a população civil, inclusive crianças, e a moradores indicam relatam outros casos não noticiados de violência e agressão.

Esta ação indiscriminada e no mínimo imprudente de representantes da polícia, que esperamos não expressem o ideário da corporação, mas são assustadoramente recorrentes na periferia, tem levado a uma manifestação desesperada dos moradores que não pode ser reduzida apenas à ação de traficantes.

Em carta ao senado, a presidente da UNAS aponta ainda outras ações violentas, que não têm sido noticiadas: “Com a morte de nossa jovem, Ana Cristina de Macedo, 17, já se acumulam vários episódios de violência policial; nem todos com a cobertura da imprensa, mesmo quando culmina com vítima fatal. Não é somente a perda de nossa jovem. Quando realizam a chamada ‘operação varredura’, casas são invadidas, pessoas são desrespeitadas em seu direito fundamental, como o de ir e vir, isso a título de defender o Estado de direito e a ordem pública, como por ocasião do episódio da menina Tainá, de oito anos (que sobreviveu), o método foi o mesmo, com a diferença de que a comunidade se viu obrigada a proteger a vida de um dos policiais que participaram do episódio; o que ontem não ocorreu, pois a vítima Ana Cristina morreu”.

Os fatos ocorridos – crianças e estudantes atingidas por tiros – bastam para causar a revolta de qualquer um e favorecem uma manifestação dos moradores para que o restante da sociedade veja a violência, discriminação e a dor a que estão sendo submetidos, já não bastassem as condições adversas de moradia e emprego a que estão sujeitos. Se em outros lugares da cidade isso fosse comum, não seríamos todos tomados de indignação? Não devemos sê-lo agora, e nos manifestarmos em defesa da vida, da paz, de condições de vida adequadas para todos os trabalhadores, jovens, idosos, independentemente de sua origem, renda, crença? Ou vamos mergulhar nossa indiferença em um obscurantismo crescente na sociedade da qual fazemos parte?

A alegação de que, nessa condição, grupos interessados em confrontos se aproveitem da comoção da população, não é descabida, mas se houve foi pontual. Qualquer análise objetiva desse caso renunciaria remeter à ação de criminosos o protesto de moradores diante das condições que estão enfrentando. Reduzir toda ação de protesto diante de fatos graves como esses a uma ação do tráfico é mostrar uma insensibilidade, no mínimo, ou má fé, diante do drama humano. Qual sociedade estamos a construir? Não se pode ignorar que se algumas ações possam ser atribuídas a grupos marginais, mas o conjunto da manifestação decorre de um anseio legítimo por justiça, por segurança, e a repressão violenta e indiscriminada diante de um momento de dor tão intensa como ferimento de quatro jovens e morte de outros dois evidentemente só poderia agravar o sentimento de revolta da população.

A ação da polícia de reprimir sumariamente manifestações cuja origem é uma indignação legítima, ampliam a zona de conflito e revelam despreparo para lidar com essas situações e o agravamento das condições nas periferias. Quando donas de casa, estudantes e trabalhadores saem às ruas porque parentes e amigos estão sendo mortos em ações do Estado, a situação não pode ser reduzida a uma ocorrência policial e ao crime. Ao contrário, a sua coragem é a que deve ser a de toda a sociedade. Os cidadãos precisam ser ouvidos. Urgentemente. É necessário encontrar soluções de curto prazo para proteção e desenvolvimento da vida, e abrir um diálogo mais sério para a superação das condições estruturais que geram esse quadro muito injusto que qualquer pessoa que simplesmente percorra as avenidas desta cidade poderá perceber.

Destacamos que embora na favela (mais de 125.000 moradores!) haja enclaves de criminalidade, os brasileiros que aí residem são em sua grande maioria trabalhadores. No caso do Heliópolis, os próprios moradores assumiram a realização de um trabalho social (http://www.unas.org.br) que hoje tem o reconhecimento de profissionais liberais de diversas áreas, intelectuais, do próprio governo, e de inúmeras instituições. Diante da enormidade das carências e do abandono do poder público até muito recentemente, inventaram eles próprios os meios técnicos e humanos para suprir o ônus de vencer a situação de desigualdade com trabalhos sociais e solidários que são exemplares, voltados para a educação de crianças e jovens, retirando-as das ruas e do crime e dando-lhes acesso à educação e formação, combate à violência, justiça restaurativa e outras tantas iniciativas em que estão empenhados, e com os quais muito temos a aprender.

Manifestamos nossa solidariedade aos moradores e repúdio a toda e qualquer forma de violência, de onde quer que venha. A paz na cidade tem que ser construída, e não pode ser construída com mais violência e incompreensão, com insensibilidade diante dos dramas humanos que a cidade abriga. É necessário nos voltarmos para ações consttitutivas do que chamamos de direitos humanos e sociais, qualidade de vida, e outras aspirações e princípios humanos que não podem ficar no papel ou em noticias às vezes ambíguas sobre o que está acontecendo ao nosso redor. Cabe a cada um, com o próprio entendimento, compreender quando a dor é intensa, e o quanto é necessário mudar condições como essas que estamos presenciando.

Euler Sandeville Jr.

http://www.espiral.org.br