MEMÓRIA DE REUNIÃO DO COLETIVO ORGANIZADOR DA DISCIPLINA AUP 665 – ARTE E PROJETO DA PAISAGEM (USP)
dia 04 de setembro, local: Sede da Unas . Horário 15:00-20:30
presentes:
Solanje, Mércia, Andreus, Juliano, Takeo, Valdete, Sabrina, Gil, Euler, Cláudia, Genaro.
Euler apresentou as questões que o levaram a “suspender” a aula do dia 04 de setembro. Mesmo assim, se algum aluno quisesse estar presente hoje em Heliópolis não seria desencorajado, tal como o Takeo que quiz ir. Destacou que foram três razões, de igual importância, diante de um fato excepcional e imprevisível, dramático, decorrente de ações que causam uma justa indignação da população e também um possível aproveitamento ou exacerbação por grupos minoritários sobre o clamor de uma população que vê seus filhos serem mortos na rua por autoridades policiais. Ações que indicam despreparo, imprudência e descaso desses representantes da lei, nos quais a população esperaria poder confiar, e não ter como algozes.
Uma primeira razão foi a responsabilidade enquanto professor de verificar pessoalmente as condições e tomar todas as providências para que a continuidade do grupo se dê de forma consciente e preparada para lidar com situações que ainda possam ocorrer. Em nenhum momento pensou em suspender ou minimizar o projeto da disciplina, mas posicioná-la adequadamente diante dos acontecimentos, pois do contrário estaríamos realizando uma abstração e não um contato com a realidade urbana. Entende que o projeto é motivado por um contato com a realidade da cidade tal como é, e que se dificuldades se interpõem, cabe-nos aprender a lidar com elas de forma construtiva. No entanto, caberá a cada um tomar conscientemente a decisão de ir em frente nesse projeto.
Mais importante ainda que isso, devido ao falecimento da jovem, o que tem sido uma violência recorrente desde junho por parte de policiais, não teria sentido passear pelo Heliópolis como se nada houvesse acontecido. Seria criar uma distração, lidar de modo superficial, e com isso deixar escapar a densidade existencial e humana com que a disciplina se depara. “Não podíamos chegar aqui como se nada tivesse acontecido”. A suspensão foi assim também uma manifestação de solidariedade.
Uma terceira razão é que o professor ficou muito emocionado com a violência dessas mortes e desejava prestar uma homenagem simbólica às famílias, para as quais levou rosas amarelas com a intenção de ir entregá-las pessoalmente, além de propor ao grupo uma ação simbólica e construtiva concreta, que apresentaria a seguir nessa reunião de avaliação diante dos fatos ocorridos.
Em uma situação como essa o diálogo se faz necessário. Conversar com as pessoas da comunidade significa expor, ouvir e tentar compreender a situação de seu ângulo. Situação essa que verificou-se bem diferente da apresentada pela mídia durante esses três dias.
Ficou claro que todos nós estamos diante de um despreparo emocional e físico da polícia, e talvez moral. Foi relatado ao grupo fatos de como a polícia aborda as pessoas na favela, inclusive com brutalidade e invasão de residências. Algumas pessoas mostraram ferimentos das balas de borracha. Foi dado o exemplo da festa junina de rua na Lagoa onde policiais militares, por volta das 3h da manhã, fecharam as ruas e começaram a encurralar os jovens e na confusão a polícia matou dois adolescentes, o que não está noticiado. Em julho, o caso da menina Tainá, que por uma sorte ou milagre levou um tiro a três cm do coração e está viva. Antes, um rapaz de 21 anos e uma senhora foram baleados durante ação da polícia na favela e nesta semana uma mãe que voltava da escola. O rapaz e a mãe, que eram estudantes, faleceram.
Solanje e Mercia, lideranças que foram Conselheiras Tutelares durante 4 anos, relataram que no começo era um menino morto por dia pela violência da própria favela. Mas a partir do desejo de transformar e da atuação incansável dessas mulheres e outros moradores, nas visitas domiciliares, na participação de fóruns da Criança e do Adolescente, na busca por projetos e programas que tirassem esses meninos das ruas, essa incidência foi diminuindo a cada dia. Foi a organização dos moradores que trouxe a mudança dessa situação ao longo dos anos. Hoje, quando isso não ocorre mais, as mortes estão acontecendo pela ação indiscriminada de agentes públicos! Esclareceram que a luta da UNAS está ligada a mudanças nas leis, nas políticas públicas e isso se dá através das ações concretas, dos trabalhos dessas pessoas.
Sabrina, que não é do bairro mas trabalha como psicóloga, reforçou o depoimento dos moradores e disse que é testemunha do trabalho que fazem no Heliópolis, e destacou que mesmo não sendo de lá sente segurança em caminhar pelo bairro e que a violência não existe habitualmente nas ruas. Euler destacou que é necessário que qualquer pessoa possa caminhar por qualquer rua da cidade, seja no Heliópolis, seja nos jardins, sem ser interceptado de modo arbitrário por seguranças, policiais ou olheiros, e que até que isso aconteça ainda não falaremos verdadeiramente de integração dos bairros da cidade, de uma cidadania plena, e que o diálogo é a base dessa superação. Juliano deu seu depoimento pessoal, de como estava nas ruas e das dificuldades que enfrentou e hoje participa das atividades solidárias da UNAS. Contou como sua mentalidade mudou, mas manifesta sua revolta e indignação pelo modo como a polícia está entrando no Heliópolis, tratando os moradores como bandidos, ferindo e batendo nas pessoas e pergunta, como isso poderia ficar sem reação?
Solanje muito enfática e emocionada contou as dificuldades que os moradores enfrentam para melhorar as condições de vida e como tiveram que começar sem ajuda externa, que hoje muita gente quer aproveitar a situação do Heliópolis para promover a si mesma, nem sempre comprometidas de fato com ações que não sejam apenas paliativas ou publicitárias. Contou dos desafios para diminuir a violência no bairro e da discriminação que moradores da favela sentem. Ressaltou a importância de pensar numa Cultura de Paz: “O Euler é uma pessoa muita bacana e que está trazendo pessoas com a intenção de mudar. Talvez apareça na mídia sobre os alunos da USP fazendo um trabalho em Heliópolis. Não estamos fazendo coisas isoladas, percebe? Graças a Deus o povo daqui tem muita solidariedade. A proporção que a situação tomou foi por causa de uma revolta também. Por inflamação da multidão e uma desinteligência da polícia”. Resumiu o papel e empenho das lideranças da UNAS: “Somos mediadores de conflitos.Nem a favor, nem contra. Eu sou uma cidadã que acredita no diálogo”, e relatou como se tem procurando abrir o diálogo com até com representantes da corporação policial, mas há muita ignorância e violência, embora haja agora também militares se interessando para ver melhor essa situação.
A reflexão nos leva a pensar na banalidade em que alguns assuntos, apesar de graves, se tornam, favorecendo uma indiferença com fatos transformados em notícias. Isso é muito ruim, pois perdemos a noção de seres humanos, o respeito, a solidariedade e até mesmo a compaixão. Nesse momento então caminhamos na intenção de como construir um dialogo na disciplina, sem ignorar os acontecimentos e de uma forma construtiva.

Euler, muito emocionado, trouxe duas sugestões: “Precisamos criar manifestações pacíficas, construtivas pelo simbólico e por uma afetividade positiva, valorizando e convidando o que há de bom em cada um para transformar a situação de violência e descaso em um anseio comum de construir uma cidade livre e segura para todos. A primeira proposta é espalhar pétalas brancas pelas ruas de Heliópolis onde ocorreram esses casos, convidando outras pessoas a participarem, como uma manifestação pela paz no Heliópolis e da cidade com o Heliópolis, dando evidência nesse processo às ações coletivas e construtivas que já ocorrem no bairro. Uma segunda sugestão, e que exige maior preparo, é transformar a oficina prevista pela disciplina nos CCAs em um trabalho que evidencie os anseios da população diante da cidade. A idéia é levar as crianças ao IEB (USP) para conhecer a exposição sobre paisagens da qual fui curador e que já vínhamos falando disso, e nas oficinas dos CCAs com os alunos e monitores, pedir para as crianças  desenharem e escreverem seus sonhos. Esse material seria editado e colocado em forma de cartões e seriam soltos em balões de oxigênio em algum lugar público de São Paulo, como o MASP ou a Praça da Sé, pelas próprias crianças e pelo grupo. Eu não aceito essa violência de forma alguma, mas temos de ser capazes de apontar construtivamente sua superação.”
Encaminhamentos:
Os presentes apoiaram e encamparam essas sugestões que devem ser apresentadas a todo o grupo, o Euler vai colocar no site e no e-mail do grupo a nossa conversa e as idéias da manifestação, e a carta da Cleide esclarecendo sobre o Heliópolis, que foi lida pelo Suplicy no Senado. Cláudia sugeriu que também se façam banners com esse material das oficinas, a serem colocados em locais culturais da cidade. Takeo sugeriu que o trabalho final da disciplina ajude as pessoas que não vivem no Heliópolis a conhecer as condições e ações concretas da favela. Genaro aventou de jogar as pétalas em algum outro local da cidade, como a Praça da Sé. Claudia levantou a possibilidade de alguma ação artística, ou pintura no chão, nos lugares onde ocorreram essas violências.
A idéia é manter o planejamento da disciplina, mas informado pelos novos acontecimentos e por essas propostas, adaptando o cronograma se necessário. Fechou-se o percurso pelo Heliópolis na semana que vem e depois haverá uma reflexão sobre tudo isso em sala na UNAS, já com um posicionamento sobre ações como essas que foram sugeridas.
Após a reunião Claudia, Juliano, Solange e Sabrina levaram Euler à casa da menina que fora baleada em julho, e fomos recebidos pela família. Foi entregue à Tainá (8 anos) uma rosa amarela como homenagem e solidariedade, o que trouxe a todos nós e aos familiares muita emoção e alegria pela beleza e bem estar dessa criança, lutando para superar o que passou. Outras pessoas da UNAS acompanharam o senador Eduardo Suplicy, que no mesmo dia foi ao Heliópolis visitar a família da moça assassinada nesta semana, e depois teve uma reunião com a UNAS. Após isso, continuaram  uma confraternização na lanchonete em frente, já no início da noite.
Foi uma conversa boa, cheia de emoções e indignação. Cada um pode dizer qual era o seu sentimento diante dessa e outras situações já vividas de longe e de perto. Todos têm a certeza de que situações como essa não podem acontecer mais. Está nítido que todos estão perplexos, mas cheios de vontade de transformar essa situação.

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